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Da roça à barra!


Minha relação com o cacau e o chocolate começa muito antes de eu sequer saber que eles fariam parte da minha vida profissional.

Durante toda a minha infância, a conexão com a natureza, os animais e o cultivo de alimentos esteve sempre presente. Tínhamos um sítio no litoral do Rio Grande do Sul e, naquela época (a adorável década de 80) as férias escolares começavam no final de novembro e só terminavam em março. Um quarto do ano era vivido literalmente no meio do mato.

E do sítio, eu levava para a cidade tudo e mais um pouco. Galinhas, patos, cachorro, tartaruga, periquitos, aquários… e até girinos, que eu catava esporadicamente pela cidade, já que morávamos próximos ao Jardim Botânico de Porto Alegre. Foi dessa infância que nasceu meu apreço — e depois paixão — por criar, cultivar e observar os ciclos da vida.

No final da adolescência, quase troquei definitivamente a cidade pelo campo. Não aconteceu, mas a semente ficou ali, bem plantada. Em 1997, tive meu primeiro contato direto com o chocolate: por cerca de dois anos, transformei e vendi chocolate como renda extra. Depois, a vida seguiu seu curso “convencional”: faculdade, mercado de trabalho, empreendedorismo. Rodei o Brasil e alguns lugares do mundo, atuando com consultorias, novos mercados e gestão de projetos.

Mas algumas conexões nunca se perdem — elas apenas hibernam.

Em 2010, ao iniciar meu primeiro curso de vinhos, algo despertou novamente. O vinho tem uma característica fascinante: quem faz bons vinhos, cuida da terra. Cuida da uva, do solo, do clima, do tempo. Aquela lógica — da origem até o produto final — reacendeu em mim a vontade de voltar ao chocolate, inicialmente como hobby, quase como um retorno afetivo.

Em 2013, veio a virada definitiva de chave. Fiz uma especialização na Castelli Escola de Chocolataria, em Canela/RS, e foi ali que conheci, de fato, a origem da matéria-prima mais importante do chocolate: o cacau. Desde então, não parei mais. Estudar, pesquisar, experimentar, errar, acertar e construir conhecimento passou a ser rotina — não apenas sobre chocolate e tudo o que é possível criar a partir dele, mas principalmente sobre o cacau.

Um fruto extraordinário, do qual usamos historicamente apenas cerca de 6%, que é a amêndoa seca, e que, ainda assim, revela um universo de possibilidades muito além do chocolate.

Essa talvez tenha sido uma das maiores descobertas da minha jornada da roça à barra: quanto mais me aprofundo no cacau, mais percebo o quanto ainda há para explorar. Seja na criação de novas alternativas econômicas para o fruto como um todo, seja na melhoria da principal matéria-prima do chocolate, a amêndoa.

E nesse caminho, uma constatação se impõe. Diferente do vinho e de outras culturas agrícolas, o cacau foi, por séculos, deixado de lado. Sabemos pouco sobre ele. Pouco sobre terroir. Pouco sobre variedades. Pouco sobre como clima, solo e manejo impactam aroma, sabor e textura do chocolate.

Talvez porque, mesmo com um cacau de baixa qualidade, ainda assim se faz chocolate. Bom ou ruim, melhor ou pior, chocolate quase sempre agrada. Ele conforta, presenteia, acolhe. É indulgência e afeto ao mesmo tempo.

E não é por acaso.

Seu nome científico, Theobroma cacao, vem do grego e significa literalmente “alimento dos deuses”. Talvez meu trabalho — e minha inquietação — seja justamente essa: honrar esse nome, começando pela origem.


Da roça. Até a barra.

 
 
 

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Soluções aplicadas à cadeia do cacau e chocolate.

 

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